terça-feira, 14 de novembro de 2023

Comentários



Volta e meia sou invadida pelos ventos da saudade,aí resolvi escrever esta postagem. Com a pretensão de descrever brevemente sobre algumas ideias e de como elas inicialmente são só nossas,mas depois ganham outras formas devido às interpretações do leitor.
Aprendi a comentar com um professor icônico,ele é diferente em praticamente tudo,sua metodologia sempre causou impactos por sair do tradicional e quando isso acontece,eu simplesmente amooo.
Até eu conseguir fazer comentários mais organizados,de acordo com as regras de um fichamento,por exemplo; sofri!
E por que cito isso? Porque nada é feito ao acaso. A inspiração envolve trabalho. Quem escreve,escreve por um motivo e para determinado público. Mesmo que inicialmente esse público seja o sujeito escrevente.
Imagino,muitas vezes,a cara da Clarice Lispector lendo um simples comentário meu,sobre seu livro A HORA DA ESTRELA (1977) ou trechos dele. Talvez ela dissesse para si mesma: “Eu realmente escrevi assim?!”
Também já imaginei a cara do Bernardo Guimarães lendo minha série “Esboços Subtraídos” (2022-2023) que nasceu após minhas leituras do seu livro O SEMINARISTA (1872).
Quem escreve precisa conhecer a gramática da língua portuguesa,e tão importante quanto isso,deve saber envolver o leitor no enredo,nos versos do poema… Aí acontece a alquimia,escrever é uma mágica. E ela encanta e confunde.
Mesmo os que não fogem da sintaxe e da semântica,não controlam as interpretações que podem surgir.
Isto está além do tipo de texto,sua estrutura e da pontuação nele empregada. A leitura vai além dos conhecimentos gramaticais.
Ganha outra configuração na mente de quem ler, agora essa pessoa pontua como quer ou nem faz uso dos sinais de pontuação e acentos gráficos.
Tanta gente jura que estive apaixonada quando escrevi este ou aquele poema. Ou que “subia pelas paredes” para escrever poemas picantes. Enfim,mesmo quem me conhece mais de perto se confunde.
Lá no Facebook a gente brinca,tem alguns poetas que dizem para nunca se apaixonar pelas poetisas,pois elas fingem todos os sentimentos. E eles também!
As palavras apresentam diversos sentidos,se usadas adequadamente o significado ainda sai do sentido dicionarizado e ganha sentido figurado. Está na própria gramática essas possibilidades.
A lista é interminável de tudo que já escrevi e publiquei aqui e nos muitos grupos no Facebook. As pessoas que fizeram (e fazem) parte de cada inspiração são diversas. Incluindo livros,revistas,gibis,letras de música,vídeos e outras fontes de inspiração. E garanto que nos momentos em que escrevo meus textos,não estou produzida,maquiada e bem confortável numa cadeira ou sofá. Muito menos pensando somente no conteúdo do que vou publicar.
Para ilustrar melhor tudo que afirmo até aqui,escolhi comentar um conto de Franz Kafka “Uma mulher pequena” de 1923. E não será uma análise técnica,mas de uma leitora fascinada pela realidade que envolve quem ler, em cada cena descrita. O estilo dele é marcante, faz o leitor se deliciar.
Seguindo o olhar daqueles que me analisam,posso dizer que os personagens se querem e não assumem. O desejo é tão intenso que quando se encontram saem faíscas desse desejo reprimido. Permitindo ao leitor pensar que há uma altíssima dose de antipatia. E quem a sofre sem compreender as razões é o narrador-personagem. Tudo é contado sob seu olhar,enfatiza seus sentimentos.
“Já me perguntei várias vezes por que a exaspero tanto; pode ser que tudo em mim contrarie o seu sentido de beleza,o seu sentimento de justiça,os seus hábitos,as suas tradições,as suas esperanças; existem naturezas que se contradizem desse modo,mas por que ela sofre tanto com isso?” (p.10)
Eles estão sempre se encontrando nos mesmos lugares. E a cada encontro,a desagradável mulher o faz sentir-se o pior dos homens. O desprazer vai além de estarem no mesmo espaço.
Ele presta atenção em cada detalhe do que ela usa,o jeito que anda e como se expressa. O que o deixa enlouquecido consigo mesmo.
“A grande diferença é que aos poucos eu os fui conhecendo e distinguindo suas caras; antes eu acreditava que viessem de todos os lados, sucessivamente,que as dimensões do caso aumentavam e forçariam por si mesmas a decisão; hoje julgo saber que estavam todos ali desde sempre e que nada ou muito pouco têm a ver com a chegada da decisão." (p.16)
Kafka deixa que fluam pensamentos sobre sua escrita. É uma leitura fora das linhas e entrelinhas.
Gosto de contos reais,isso propicia revolver os ideais de vida de quem entra em contato com esse tipo de literatura,sem dispensar uma boa dose da imaginação.
Este e outros contos mais uma novela,se encontram na obra cuja capa aparece na abertura da postagem.
No princípio era o verbo,e ele se converteu em caracteres para codificar todos os tipos de mensagens.
Escrever pode inspirar e espalhar vestígios das próprias inspirações.




Livro em formato digital
Tradução de Modesto Carone
INBS 987-85-8086-394-9
www.blogdacompanhia.com.br



Valdelice Nunes
Novembro/2023
*imagem* capa do e-book 


https://www.facebook.com/Valdelicenune

4 comentários:

Jornalista Douglas Melo disse...

Olá Valdelice,
“Franz Kafka” foi um gênio; “Clarice Lispector” praticamente inventou a ironia; “José Saramago” dispensou todas vírgulas de seus escritos; “Guimarães Rosa” criou o diminutivo do diminutivo; e este teu amigo jornalista usa e abusa das aspas (“ ”), porque, acredita que nomes entre aspas parecem ter asas e assim as palavras literalmente se santificam.
Seu texto está excelente, trouxe “você como escritora” aos olhos dos notórias da literatura de outrora.
BatBeijos!!!〴⋋_⋌〵

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e outros textos literários. disse...

Escrever como uma aete literária
É buscar a beleza como arte
Da escrita que faz do todo parte
A repartir com a parte imaginária
Da alma do leitor ou mente otária
Do intelectual sábio e notório
Crítico de arte que lê ao contrário
Do que a alma do escritor quiz transmitir,
Porque escreve a si e ao porvir
Como um ser simples e visionário.

Amiga, pouco importa que outros pensem. o importante é a busca do belo por sua alma a ela mesma que absorve e deleita=se com a beleza encontrada. Abraço fraterno. Laerte.

Roselia Bezerra disse...

Boa noite de domingo, querida amiga Val!
Sinceramente não me preocupo com o que os outros vão pensar/interpretar... preciso seg autêntica no que escrevo, como você foi aqui eu creio.
Levo em conta a ética da pessoa que nos lê.
Uma pergunta em especial em meio a um abrangente texto, me tocou profundamente.
Sobre será que o autor quis dizer o que eu compreendi?
É tão boa a ressonância diversificada, muitas vezes, o leitor vê muito além do que ousei/pretendi dizer, sinceramente...
Enfim, os escritores são flexíveis e compreensíveis.
A amabilidade deveria permear a acolhida do leitor e vice-versa.
Gostei muito das suas reflexões.
Tenha uma nova semana abençoada!
Beijinhis com carinho fraterno

Jovem Jornalista disse...

Bela reflexão. Ninguém é 100% decifrável.

Boa semana!

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